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A máscara e a vertigem

Referências

Meta

  • Author: Roger Caillois.
  • Editora: Cotovia
  • Ano: 1990
  • ISBN: 972-9013-28-4
  • Tradução: José Garcez Palha

Original:

  • Editora: Gallimard
  • Ano: 1958

Índice

  • Regras versus sem regras (jogos de imitação por exemplo), 28.

  • Regras das regras: jogos como atividades: 1. livres; 2; delimitadas; 3. incertas; 4. improdutivas; 5.regulamentadas; 6. fictícias (págs 29-30).

  • Jogos e animais: 35, 40; alea aparece apenas no humano (38).

  • Papel civilizador dos jogos e sua corrupção, 68.

Básico

Esta noção de totalidade fechada, completa e imutável de início, concebida para
funcionar sem outra intervenção externa que não seja a energia que lhe dá o
movimento, constitui decerto uma preciosa inovação um mundo essencialmente em
mudança, cujos dados são praticamente infinitos e, por outro lado, se
transforma sem cessar.

-- 10

O termo <<jogo>> combina, então, em si as ideias de limites, liberdade e
invenção. Num registro próximo, exprime uma notável combinação onde se lêem
conjuntamente os conceitos de sorte e de destreza, dos recursos recebidos do
azar ou da sorte e da mais ou menos arguta inteligência que as põe em prática e
que trata de tirar delas o máximo proveito.  Expressões como _ter bom jogo_
correspondem ao primeito dos sentidos, outras como _jogar pelo seguro_ ou
mostrar o jogo ou, inversamente, _dissimulr o jogo_, referem-se
inextricavelmente a ambos: vantagens à partida e um delinear astuto duma
sapiente estratégia.

O conceito de risco vem imediatamente complicar os dados já de si confusos:
a avaliação dos recursos disponíveis e o cálculo das eventualidades previstas
fazem-se de súbito acompanhar duma outra especulação, uma espécie de aposta
que supõe uma comparação entre o risco aceite e o resultado previsto. Daí
decorrem expressões como pôr em jogo, jogar forte, jogas as sobras, jogar a
sua carreira, jogar a sua vida, ou ainda a constatação de que sai mais cara
a mecha do que o sebo, ou seja, que o maior dos gahos que se possa esperar
do jogo será sempre inferor ao preço da luz que o ilumina.

O _jogo_, aparece novamente como uma noção particularmente complexa que associa
um estado de facto, uma cartada favorável ou deplorável, onde o acaso e
soberano e onde o jogador recebe, por fortuna ou por desgraça, sem nada poder
fazer, a uma aptidão para tirar o melhor partido dos seus desiguais recursos.
Estes, delapidados pela negligência, só serão frutificados por um cálculo
sagaz, por uma escolha entre a prudência e a audácia que assim colabora com uma
segunda coordenada, isto é, em que medida o jogador se dispõe a apostar mais do
que lhe escapa do que naquilo que controla.

Todo o jogo é um sistema de regras que definem o que é e o que não é do jogo,
ou seja, o permitido e o proibido. Estas convenções são simultaneamente
arbitrárias, imperativas e inapeláveis.

-- 11

Finalmente a palavra _jogo_, apela para uma ideia de amplitude, de facilidade
de movimentos, uma liberdade útil mas não excessiva, quando se fala de _jogo_
de uma engrenagem ou quando se diz que um navio _joga_ a sua âncora. Esta
amplitude torna possível uma indispensável mobilidade. É o jogo que subsiste
entre os diversos elementos que permite o funcionamento de um mecanismo. Por
outro lado, esse jogo não deve ser exagerado pos a máquina enlouqueceria. Desta
feita, este espaço cuidadosamente contado impede o bloqueio e o desajusta.
_Jogo_ significa, portanto, a liberdade que deve permanecer no seio do próprio
rigor, para que este último adquira ou conserve a sua eficácia. Além do mais,
todo o mecanismo pode ser considerado como uma espécie de jogo numa outra
acepção do termo, que o dicionário precisa da seguinte forma: <<Acção regular e
combinada de diversas partes duma máquina.>> Uma máquina, de facto, é um
__puzzle__ de peças concebidas para se adaptarem umas às outras e para
funcionar em harmonia. Mas, no interior deste jogo, todo ele exactidão,
intervém, dando-lhe vida, um jogo de outro tipo. O primeiro é combinação
exacta, relojoaria perfeita, o segundo é elasticidade e margem de movimentos.

-- 12

São estas as variadas e ricas acepções que mostram em que medida, não o jogo em
si, mas as disposições psicológicas que ele traduz e fomenta, podem
efecivamente constituir importantes factores civilizacionais. Globalmente,
estes diferentes sentidos implicam noções de totalidade, regra e liberdade. Um
deles associa a existência de limites à faculdade de inventar dentro desses
limites. Um outro inicia-se entre os recursos herdados da sorte e a arte de
alcançar a vitória, socorrendo-se apenas dos recursos íntimos, inalienáveis,
que dependem exclusivamente do zelo e da obstinação individual. Um terceiro
opõe o cálculo e o risco. Um outro ainda convida a conceber leis imperiosas e
simultaneamente sem outra sanção para além da sua própria destruição, ou
preconiza a conveiência e manter alguma lacuna ou disponibilidade no seio da
mais rigorosa das economias.

Há casos em que os limites se esfumam, em que a regra se dissolve e há outros
em que, pelo contrario, a librdade e a invenção estão prestes a desaparecer.
Mas o jogo significa que os dois pólos subsistem e que há uma relação que se
mantém entre um e outro.  Propõe e difunde estruturas abstractas, imagens de
locais fechados e reservados, onde podem ser levadas a cabo concorrências
ideais. Essas estruturas, essas concorrências são, igualmente, modelos para as
instituições e para os comportamentos individuais. Não são segura e
directamente aplicáveis a um real sempre problemático, equívoco, emaranhado e
variado onde os interesses e as paixões não se deixam facilmente dominar mas
onde a violência e a traição são moeda corrente. Contudo, os modelos sugeridos
pelos jogos constituem também antecipações do universo regrado que deverá
substituir a anarquia natural.

-- 12-13

Azar e a matemática

Os jogos de competição conduzem ao desporto, os jogos de imitação e de ilusão
prefiguram as religiões do espectáculo. Os jogos de azar e de cominação
estiveram na origem de vários desenvolvimentos das matemáticas, do cálculo de
probabilidades à topologia.

-- 15

Das regras

As emaranhadas e confusas leis da vida diária são substituídas, nesse espaço
definido e durante esse tempo determinado, por regras precisas, arbitrárias,
irrecusáveis, que têm de se aceitar como tais e que presidem ao correcto
desenrolar da partida.  Se o trapaceiro as viola, pelo menos finge
respeitá-las. Não as discute: abusa da lealdade dos outros jogadores. Sob este
ponto de vista, temos de estar de acordo com os autores que sublinharam que a
desonestidade do trapaceiro não destrói o jogo. O que o destrói é o pessimista
que denuncia o carácter absurdo das leis, a sua natureza meramente
convencional, e que se recusa a jogar porque o jogo não tem sentido. Os seus
argumentos são irrefutáveis.  O jogo não tem outro sentido senão enquanto jogo.
É precisamente por isso que as suas regras são imperiosas e absolutas,
transcendendo toda e qualquer discussão. Não há nenhuma razão para que elas
sejam desta e não doutra forma. Quem não as admitir de acordo com esta
perspectiva tem necessariamente de as considerar uma manifesta extravagância.

-- 27

Desfecho

A dúvida acerca do resultado deve permanecer até o fim. Quando, numa partida de
cartas, o resultado já não oferece dúvida, não se joga mais, os jogaores põem
suas cartas na mesa. Na lotaria e na rolea, aposta-se num número que pode sair
ou não. Numa prova desportiva, as forças dos campeões devem ser equilibradas
para que cada um possa defender a sua oportunidade até ao fim. Por definição,
os jogos de habilidade envolvem, para o jogador, o risco de falhar a jogada,
uma ameaça de derrota, sem que o jogo deixaria de divertir, como acontece a
quem, por excesso de treino ou de habilidade, ganha sem esforço e
infalivelmente.

Um desfecho conhecido __a priori__, sem possibilidade de erro ou de
surpresa, conduzindo claramente a um resultado inelutável, é incompatível com a
natureza do jogo. É necessária uma renovação constante e imprevisível da
situação, como a que se produz ao atacar e ao ripostar, no caso da esgrima ou
do futebol, a cada mudança de bola, no ténis ou ainda no zadrez de cada vez que
um dos adversários altera uma peça. O jogo consiste na necessidade de enconrar,
de inventar imediatamente uma resposta _que é livre dentro dos limites das
regras_. Essa liberdade de acção do jogador, essa margem concedida à acção, é
essencial ao jogo e explica, em parte, o prazer que ele suscita.

-- 27-28

Ilynx nos insetos

O cara viaja um pouco demais na maionese, mas esse trecho de todo modo é curioso:

Estes casos de intoxicação voluntária não são casos isolados. Uma outra
variedade de formiga, a __iridomyrmex sanguineus__ do Queensland, procura as
larvas de uma pequena borboleta cinzenta para beber o embriagante líquido que
elas expelem. Comprimem com as mandíbulas a carne sumarenta dessas larvas para
as fazerem expelir o suco que contêm. Ao esgotarem uma larva, passam a outra. O
problema é que as larvas da borboleta devoram os ovos da __iridomyrmex__. Há
alturas em que o inseto que exala o tal odor <<conhece>> o seu poder e alicia a
formiga para o vício.

-- 73-74

Jogo, máquina e sistema

Foi lendo mais ou menos o seguinte trecho que me veio a ideia de que pode haver alguma articulação -- que aliás é um dos sentidos da palavra jogo, "o mecanismo ter jogo" -- entre os conceitos de máquina, sistema e jogo:

Qualquer instituição funciona, em parte, como um jogo, de al forma que se
apresenta também como um jogo que foi necessário instaurar, baseado em novos
princípios e que ocupou o lugar reservado a um jogo antigo. Esse jogo singular
responde a outras necessidades, favorece certas normas e legislações, exige
novas atitudes e novas aptidões. Deste ponto de vista, uma modificação nas
regras do jogo surge sob a forma de uma revolução. Vejamos um exemplo. Os
benefícios ou as responsabilidade atribuídas, em tempos, a cada pessoa em
função do seu nascimento, devem agora ser obtidos por mérito, por resultados
num concurso ou num exame. O que equivale a dizer que os princípios que
presidem às diferentes espécies de jogos -- azar ou destreza, sorte ou
superioridade demonstrada -- também se manifestam fora do universo fechado do
jogo. Ora, é preciso lembrar que esse mundo é governado por aqueles princípios
de forma absoluta, sem resistência, digamos, como um mundo fictício sem
matéria, sem peso, enquanto que, no universo confuso e inextricável das
relações humanas reais, a sua acção nunca surge isoladamente, nem é sequer
soberana, ou previamente limitada. Os princípios do jogo desencadeiam
consequências imprevisíveis. A sua ação, para melhor ou para pior,
caracteriza-se por uma natural fecundidade.

[...]

  __a busca da repetição, da simetria, ou, contrariamente, a alegria de
  improvisar, de inventar, de variar as soluções até ao infinito;__

-- 87

A máscara de Balta Nunes

No sec. XVIII, Veneza é, em parte, uma civilização da máscara. Esta serve para
todos os efeitos e a sua utilização encontra-se regulamentada. Aqui se descreve
uma delas, a da _bautta_ (_Les Agents secrets de Venise au XIIIe siècle,
compilação e publicação de Giovanni Comisso, Paris, 1944, p. 37, nota 1:

"A 'bautta' consistia numa espécie de mantelete com capuz negro e máscara. A
origem do nome está no grito _bau, bau_, com que se mete medo às crianças. Em
Veneza todos a usavam, a começar pelo Doge quando queria andar livremente pela
cidade. Era imposta aos nobres, homens ou mulheres, nos locais públicos, para
refrear o luxo e igualmente para impedir que os patrícios fossem atingidos na
sua dignidade em situações de contacto com o povo. Nos teatros, os porteiros
deviam assegurar-se de que os nobres traziam a _bautta_ bem posta na caa mas,
assim que entravam na sala, guardavam-na ou tiravam-na a seu bel-prazer. Os
patrícios, quando necessitavam de conferenciar, por razões de Estado, com os
embaixadores, também deviam usar a _bautta_ e, o protocolo exigia o mesmo aos
embaixadores"

-- 226

Impressionante como a descrição casa com o caso Balta Nunes.

Seria pura coincidência? Ou revela um conhecimento cultural do idealizador da operação usado com sofisticação perversa? Em tempos em que a itália dos anos 70-90 serve de modelo à caça às bruxas no judiciário não seria de se impressionar tanto, né não?